18 de fevereiro de 2010

Expansão agrícola - o novo desafio velho da cana-de-açúcar

O Washington Post publicou uma notícia há cerca de 2 anos sobre um novo impulsionador da expansão da fronteira agrícola: a cana-de-açúcar. Ela é a nova ameaça, não só para a Amazônia, mas também para o Cerrado. Esse problema já é antigo com a migração dos sulistas à região do cerrado para criação de gado e cultivo de soja. Desde então a amazônia tem diminuído, recuado. O cultivo da cana só vem a agravar um problema já antigo. Confira a notícia na íntegra aqui: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/07/30/AR2007073001484.html


O desmatamento da região amazônica tem implicações gravíssimas no sistema da região. O solo é argiloso, impermeável e incapaz de reter nutrientes por si só. Combinando este fator físico à chuva (cada vez mais) ácida que hipoteticamente cairia diretamente sobre o solo carente de cobertura vegetal, formar-se-ia um deserto no lugar da floresta tropical. Além disto, perderíamos muito em plantas e variedades importantíssimas para a pesquisa da indústria farmacológica, além da necessidade de se preservar o potencial hídrico da região. Embora não seja propícia para instalação de usinas hidrelétricas (o que seria totalmente desnecessário), a bacia hidrográfica do Amazonas é uma rara e importantíssima fonte de água potável e meio de transporte fluvial. A bacia amazônica secaria, num caso extremo.

A nova ameaça aos ecossistemas do Cerrado e da Amazônia, a cana-de-açúcar, tem como origem os esforços do governo federal e entidades privadas em oferecer fontes alternativas de combustível para os milhões de automóveis existentes no país. E a bola da vez é o álcool, mais barato que a gasolina e com tecnologia para sua produção já desenvolvida.

O cultivo de cana-de-açúcar é extremamente impactante, muito mais do que o cultivo de soja e a criação de gado. Isso devido à prática da queima do solo, que gera poluição do ar com liberação de gases amplificadores de efeito estufa e também degradação do solo queimado. A queima da cana é uma prática proibida por lei, entretanto continua a ser efetuada continuamente. No mês de junho estive viajando durante a noite no interior de São Paulo, o maior estado no cultivo de cana, e tive sérios problemas pra trafegar na estrada. Mal se podia enxergar o pavimento devido à densa fumaça proveniente da queima de cana. Ao menos, os "olhos de gato" das estradas bem conservadas deste estado são capazes de evitar acidentes. As queimadas em geral são feitas à noite por causa da maior velocidade dos ventos que proopiciam melhor dispersão da fumaça neste horário.

Energia Nuclear: “Ser ou não ser”

O pré-sal foi descoberto e foi tudo por água abaixo.

Texto escrito por mim em 2007 que reproduzo na íntegra:


A construção da nova usina nuclear Angra III deve ter início ainda este ano, entretanto, a crise política pode atrasar o aval do governo para que as obras se iniciem. O projeto deve ser concluído em 66 meses e custará R$ 5,8 bilhões de reais em 5 anos, financiados pela Eletrobrás, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e por bancos comerciais estrangeiros. Essa nova planta de produção energética a partir de urânio deve ter capacidade semelhante à de Angra II, podendo atender à demanda de uma população de 2 milhões de pessoas.

Essa notícia levanta aquela velha questão: Seria a energia nuclear perigosa? Será que essa posição cautelosa (por quê não dizer preconceituosa?) dos ambientalistas em relação ao uso de energia nuclear se justifica? Não faltam por aí defensores do modelo atual da matriz energética brasileira baseada em hidrelétricas, tidas como fonte de energia limpa, segura e renovável. Será que essa afirmação é verdadadeira? A seguir tentarei responder estas e outras perguntas que muitos têm feito, principalmente após a aprovação da construção de Angra III.

A energia nuclear não é um exemplo de fonte renovável e por isso pode ser um erro adotá-la como principal fonte energética, porém, o nível de emissão de gases poluentes é nulo na usina e o impacto ambiental só é considerável na fase de exploração mineral; portanto, é uma alternativa muito atraente no combate à amplificação do efeito estufa, ajudando na estabilização da emissão mundial dos gases que são a razão do super-aquecimento global. Por sua vez, a área alagada causada por uma hidrelétrica causa morte da vida aquática devido à decomposição das áreas verdes submersas (eutrofização) e libera gás metano na atmosfera, que é cerca de mil vezes mais prejudicial ao efeito estufa do que o gás carbônico.

Não há como citar a energia nuclear sem se lembrar do fatídico ano de 1986, quando explodiu a usina de Chernobyl. Este desastre matou oficialmente 4.000 pessoas. Além disso, cerca de 5,5% da força de trabalho ucraniana ficou inerte devido às conseqüências do acidente. Porém, o reator usado na ocasião é do tipo RBMK (usa plutônio como combustível), que é muito instável à baixa potência, diferente dos geradores utilizados no Brasil, do tipo PWR, que utilizam urânio como combustível, sendo assim mais seguros e eficientes. Portanto, o vazamento de Chernobyl não se aplica à realidade do projeto nuclear brasileiro e foi bastante destrutivo devido à inexistência das medidas de segurança previamente citadas. Seu reator estava presente no interior de um galpão carente de qualquer tipo de isolamento com o mundo exterior.

O Brasil possui grande potencial para produção e auto-suficiência em energia nuclear através do urânio, possivelmente até exportando o excesso da produção de energia elétrica gerada pelo recurso em questão. É possível prever um aumento da relevência da energia nuclear na matriz energética como fonte complementar à demanda nacional. Entretanto, os órgãos fiscalizadores (IBAMA), legisladores e administradores (SEMA e CONAMA) sofrem com a falta de normas que seriam adotadas a fim de promover um melhor aproveitamento do recurso. Há necessidade de maior rigorosidade na execução da fiscalização dessa prática, já que se trata de um material perigoso, tanto para o meio ambiente quanto para o próprio Homem, que se beneficia dele.

Hoje mesmo (08/09) José Serra, governador de São Paulo, criticou o governo federal pela falta de planejamento e metas a serem seguidas: “Está faltando um rumo mais definido, um projeto que a Nação tenha uma percepção melhor, para onde vai e possa também decidir a respeito desse futuro caminho.” - disse Serra. Quem sofrerá com essa irresponsabilidade somos todos nós, que teremos que enfrentar um apagão crônico até o fim dessa década devido à falta de investimentos no setor energético. Por essa razão, o Brasil será obrigado a aumentar o número de termelétricas nos próximos anos a fim de suprir essa demanda crescente e comprometerá sua posição privilegiada no mercado de créditos de carbono, fruto de uma política de utilização dos recursos hídricos como fonte de energia principal.

Mas olhemos pelo lado bom: O país tem crescido pouquíssimo (para ser mais específico, só ganhou do Haiti neste ano) e isso possivelmente adiará o nosso apagão estrutural. Não adiantará rezar pela chuva, como fizemos em 2001, dessa vez teremos que rezar para que, na próxima eleição, o povo escolha alguém mais preocupado com este país. Já pensaram se hoje o Brasil crescesse a um ritmo alucinante como a China, criando milhares de empregos e ganhando novos mercados??? Que horror seria!!! Ficaríamos sem luz em 6 meses!!! Pelo menos é o que deve estar pensando Lula e seus poucos acessores.

Por maior que seja este país de proporções continentais, eu não consigo acreditar que cobrando quase 40% de impostos faltem investimentos em infra-estrutura e energia. Na minha opinião, precisamos mandar esses políticos corruptos e sem senso de coletividade para a cadeia e planejar melhor nosso futuro, começando dentro de nossas casas. Se a nossa sociedade se der conta disso, um dia se refletirá na nossa política também.

Por fim, uma frase de José Serra e algumas perguntas para que os apreciados leitores reflitam, neste fim-de-semana de comemoração ao dia da independência:

“Um requisito fundamental do desenvolvimento é o crescimento sustentado da economia, ano após ano, e não bolhas de crescimento em determinados momentos. O Brasil precisa desse projeto para gerar emprego, para gerar renda para as famílias. Emprego e renda são condições essenciais para que as pessoas possam progredir e aproveitar as oportunidades na vida. Essa é a minha preocupação essencial num dia como hoje, em que comemoramos nossa independência.”

Somos independentes? Ou ainda há milhões de brasileiros que não ganham o suficiente para decidirem seus futuros e escolherem suas oportunidades na vida? Seriam eles escravos da falta de oportunidade?

C-40 e APEC

Líderes do Apec assinam acordo sobre o clima

Os líderes do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec) assinaram hoje a Declaração de Sydney sobre a mudança climática, anunciou o primeiro-ministro australiano e anfitrião da reunião, John Howard. O documento, cujo conteúdo foi divulgado logo em seguida, se apresenta como "uma pedra angular para se obter um acordo internacional sobre a mudança climática".

Howard explicou em entrevista coletiva na Ópera de Sydney que "a declaração reconhece a necessidade de conseguir um uso mais eficiente da energia". Ele destacou ainda "a necessidade de que todas as nações contribuam segundo suas capacidades e circunstâncias" para corrigir a mudança climática. A declaração "reconhece a necessidade de um consenso sobre objetivos a longo prazo para reduzir as emissões globais de gases poluentes, para que levem um acordo efetivo sobre a mudança climática após 2012". Para isso, é vital que "todas as nações contribuam para atingir o objetivo, segundo suas capacidades e circunstâncias nacionais".

O texto prevê a adoção de "metas regionais para reduzir a intensidade energética e aumentar a superfície de florestas, com políticas que apóiem o crescimento econômico com redução de emissões de gases poluentes". "Novas tecnologias, e principalmente recursos e produção com emissões baixas ou nulas, serão cruciais para obter uma redução de emissões real", diz o documento. Howard afirmou que a resolução fortalece a luta contra a mudança climática, além de provar que o Apec está vivo e que o sistema do consenso funciona. Pela iniciativa da Austrália, os 21 países se comprometem a melhorar a eficiência energética em 25% até 2030. A Declaração de Sydney também escolhe a ONU como o espaço adequado para discutir e dirigir a luta contra a mudança climática.

A Conferência da ONU sobre a Mudança Climática será realizada na ilha indonésia de Bali, em dezembro. O documento foi aprovado hoje na abertura da Cúpula do Apec, para poder contar com a assinatura do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Hoje à tarde ele retorna para Washington, e não poderá assistir ao encerramento da reunião, amanhã. O Apec é formado por Austrália, Brunei, Canadá, Chile, China, China, Coréia do Sul, EUA, Filipinas, Hong Kong, Indonésia, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Peru, Rússia, Cingapura, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

Notícias como esta nos fazem crer que a criação do C-40 no fim de 2005 foi uma boa idéia. O C-40 é um grupo de 40 cidades, entre elas São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, que se unem para fazer sua parte a fim de combater o aquecimento global, dando um passo a frente das ineficazes e lentas medidas tomadas pelas entidades nacionais onde se localizam estas cidades.

O projeto é importante porque essas 40 cidades são responsáveis por 80% das emissões mundiais de gases do efeito estufa e 75% do consumo mundial de energia. O projeto espera economizar de 20% a 50% de energia com a troca dos sistemas de refrigeração, aquecimento e iluminação por alternativas mais eficientes a partir de US$ 5 bilhões.

Uma verdade inconveniente (An inconvenient truth - Al Gore)

Se alguém perguntar a você como o aumento nas emissões do dióxido de carbono pode alterar a nossa vida daqui pra frente e você não tiver a mínima idéia do que dizer, indico um filme a você: o documentário feito por Al Gore, vencedor do Oscar, durante suas inúmeras viagens pelo mundo tentando descobrir mais sobre as causas sobre o aquecimento global. O filme mostra, de forma superficial, dinâmica e nada cansativa as mudanças pelas quais o planeta está passando e as conseqüências até mesmo no nosso dia-a-dia no futuro. Filme sobre um tema importante e que prende a atenção. Quer mais o quê?!

Este é o gráfico mais conhecido do filme. Ele mostra a relação entre o aumento de temperatura e o aumento na concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre devido à ação antropogênica nos últimos 100 anos de revolução industrial:


A coisa vai ficar quente por aqui... mas quais as conseqüências??? Um calorzinho só? Usar bermuda no inverno? NÃO!

Onde chove vai chover ainda mais, onde não chove vai chover ainda menos, as chuvas serão mais raras e mais torrenciais, derretimento das geleiras e mudança no nível do mar, alagamento de algumas áreas costeiras e secagem de outras. O problema maior é que a natureza não obedece a padrões lineares muitas vezes, ou seja, essas mudanças podem sim ocorrer drasticamente como no filme "o dia depois de amanhã", ao contrário do que muitos pensam.

A Gröenlandia possui uma camada natural de gelo sobre sua plataforma que está derretendo. O problema é que toda aquela água gélida que se encontra sobre sua plataforma pode ser liberada repentinamente no Atlântico norte, o que implicaria o resfriamento de correntes de ar quente que trazem calor ao hemisfério norte provenientes do Equador. Esse acontecimento catastrófico significaria uma nova era glacial no hemisfério norte em plena fase de aquecimento do planeta!

Só pra constar:

A polícia da Califórnia prendeu nesta quarta-feira (4) Albert Gore III, o filho do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, depois de encontrar maconha e narcóticos em seu automóvel.

O carro Toyota Prius (movido a baterias elétricas) azul de Gore filho foi detectado pelas autoridades circulando a mais de 160 km por hora na I-5, a principal autopista da costa oeste.

Após parar seu carro, a polícia sentiu cheiro de maconha, revistou o automóvel e encontrou a droga, assim como Vicodin, Valium, Xantax e Adderal -drogas que exigem prescrição médica para tratamento psiquiátrico.

"Ele não tinha receitas para nenhum dos medicamentos", indicou Jim Amormino, porta-voz do departamento do xerife.

Desastre de Bhopal: por dentro do que aconteceu

Na madrugada do dia 2 para o dia 3 de dezembro de 1984, acontecia o maior desastre da indústria química na história. 40 toneladas de isocianato de metila se dispersavam pela cidade a partir de uma fábrica de pesticidas localizada no coração da cidade indiana Bhopal. Milhares de pessoas morreram naquela madrugada e outras centenas de milhares sofrem as conseqüências até os dias de hoje.

Na época, a Union Carbide, responsável pela planta causadora do incidente, se negou a fornecer informações sobre a natureza do gás liberado, o que dificultou o diagnóstico por parte dos médicos e potencializou uma tragédia que poderia pelo menos ter sido amenizada não fosse a atitude negligente da corporação. Posteriormente, a empresa foi condenada a pagar indenizações às famílias, as quais não foram totalmente quitadas até hoje e culminaram com a falência e venda do espólio da Union Carbide à norte-americana DOW Chemicals, a maior indústria química do mundo, em 2001.

Embora a Union Carbide tenha sido incorporada pela DOW, esta se nega a arcar com os passivos ambientais deixados pelo desastre, como a contaminação da água e das pessoas da região. Veja como era a região, a fábrica é a construção branca no centro e a cidade está ao redor:

O isocianato de metila era uma molécula muito interessante na indústria química mundial por substituir os CFC´s, conhecidos por serem responsáveis pela destruição da camada de ozônio. Sua alta toxicidade no entanto era desconhecida ou pouco conhecida, o que também determinou grande impacto pela falta de tratamento a essa espécie.

Do ponto de vista toxicológico, o isocianato de metila pode agir por via inalatória ou pelo trato gastro-intestinal. Na primeira hipótese, o gás entra pelo pulmão e cai diretamente na corrente sangüínea, proporcionando toxicidade mais elevada do que na segunda hipótese, na qual a substância precisa ser primeiramente dissolvida na saliva para depois ser ingerida e caminhar até ser absorvida pelo duodeno e entrar na circulação sangüínea. Na verdade, essa substância não é o agente tóxico; há uma reação entre a s-glutationa e o isocianato de metila, que gera um produto chamado n-benziloxicarbonil-dimetilester. Este sim é agente tóxico, já que desnatura as estruturas secundárias e terciárias das enzimas ao reagir com os radicais sulfidrilas em aminoácidos do tipo cisteína. As enzimas perdem sua função biológica e levam o indivíduo à morte em poucas horas.

Fisiologicamente, há obstrução dos bronquíolos levando a sufocamento, náuseas, vômito, dor abdominal, hemorragia, aborto, fraqueza, tremores, perda de audição, vertigem e coma. É uma substância altamente tóxica, figurando entre as 20 mais tóxicas que se tem conhecimento.

Acreditava-se que ao se liberar o gás, o mesmo em contato com a água se decomporia em dois produtos inertes e estáveis. Porém, não foi o que aconteceu e coloca-se a culpa nos dois operários que manuseavam a válvula de segurança no momento do acidente. É como aquela frase que foi usada pela mídia à época do acidente do vôo JJ3054 da TAM: "morto não se defende".

Região brasileira onde se dá a exploração, o beneficiamento e a distribuição do urânio.

Onde a coisa acontece? Aqui explico onde ficam as instalações brasileiras e pra que servem.

O Brasil possui hoje a 6ª maior reserva de urânio no mundo. As maiores reservas conhecidas no Brasil deste recurso natural estão nos estados de Minas Gerais, Bahia, Ceará e Paraná, totalizando mais de 300.000 toneladas de urânio, o que implica auto-suficiência na produção do combustível e até exportação do excedente.

Inicialmente, a extração de urânio e beneficiamento do mesmo se dava em Caldas (Minas Gerais) para suprimento das usinas nucleares nacionais na década de oitenta. Após o fim das reservas naquela região, a extração passou a ser feita em Lagoa Real (Bahia), cabendo a Caldas o beneficiamento e a Resende (RJ) a produção do combustível usado no complexo de Angra dos Reis.

A reserva de Lagoa Real (Bahia) conta com cerca de 140.000 toneladas de urânio a serem produzidos a partir de 33 ocorrências na região, com a existência de uma lavra conhecida como anomalia 13, onde se prevê a produção de 400 toneladas ao ano de urânio com planejamento futuro de aumento para 800 toneladas ao ano. As reservas presentes nessa região podem suprir 10 reatores semelhantes ao de Angra II, que possui capacidade de produzir 1350 megawatts, por toda a vida útil do projeto.

O beneficiamento do urânio é feito em Caldas (Minas Gerais) e Lagoa Real (Bahia), onde se produz o concentrado de urânio (U3O8), também chamado de yellowcake. O urânio concentrado é então transportado até Rezende (Rio de Janeiro), onde ocorre a produção do combustível para o complexo nuclear de Angra dos Reis (Rio de Janeiro) através dos processos de conversão do yellowcake em hexafluoreto de urânio (UF6), enriquecimento do urânio, reconversão do hexafluoreto de urânio em pó de dióxido de urânio (UO2) e por fim a transformação do mesmo em pastilhas.

Entretanto, o enriquecimento de urânio não ocorre no Brasil, mas no Canadá. O hexafluoreto de urânio é transportado de navio do porto de Salvador em contêineres até o país citado e volta já enriquecido pelo processo de ultracentrifugação, embora um contrato de implantação tenha sido assinado em 2000, tendo em vista a implantação a médio-prazo desta tecnologia no Brasil.

Parece até um empresa que fazia um propaganda (falsa) de auto-suficiência uns tempos atrás...

Energia Nuclear: aspectos econômicos, tecnológicos e ambientais

Poucos países dominam os processos de produção de energia nuclear, o que torna o urânio uma fonte de energia não acessível a todos os extratos sócio-econômicos. O manejo deste elemento é composto por complexos processos de enriquecimento e geração de energia elétrica nas usinas, implicando a dependência tecnológica da grande maioria dos países em relação aos países mais desenvolvidos nesta área, como o Canadá, Alemanha e Estados Unidos.

No caso brasileiro, ainda há dependência externa no processo de enriquecimento do urânio, realizado no Canadá. Porém, há a perspectiva de que nos próximos anos esta tecnologia seja totalmente dominada e executada em território nacional. Em 2002 foi assinado um acordo de desenvolvimento no Brasil da tecnologia de ultracentrifugação, a mais eficiente no enriquecimento do urânio beneficiado.

Atualmente, com os efeitos do aquecimento global, há necessidade de se encontrar fontes alternativas de energia que não emitam gases com alta capacidade de absorção de energia proveniente do sol, como o metano, o dióxido de carbono, os óxidos de nitrogênio e de enxofre. Dessa forma, a energia nuclear e a procura pelo urânio podem se tornar uma alternativa bastante interessante a ser considerada no suprimento de energia elétrica para as atividades antropogênicas devido à sua característica de não emissão direta desses gases.

No Brasil, é esperado o aumento dos investimentos na produção de urânio e energia nuclear como alternativa à previsão de déficit energético ainda no início da próxima década. A conclusão da usina nuclear Angra II e o presente início da construção de Angra III mostram a tendência do governo nacional em adotar uma estratégia energética com menor dependência de matrizes suscetíveis ao clima, como o são as hidrelétricas.

Entretanto, a alta tecnologia necessária para o enriquecimento do urânio, que é parte de grande importância no processo, o alto custo de operação das usinas nucleares e a periculosidade que envolve o tratamento dos dejetos radioativos desse elemento acabam por encarecer muito o valor do material e, por conseqüência, a energia proporcionada pelo mesmo (cerca de R$45/MWh). Grande parte da resistência à adoção desta matriz energética está no fato não ser renovável e produzir lixo sem possibilidade de reutilização, opondo a tendência mundial de adotar a sustentabilidade como política desenvolvimentista.

O urânio possui alta concentração de energia e consegue ser muito mais eficiente na produção de energia elétrica ou térmica do que outros recursos como a água, o carvão e as células foto-voltáicas. Uma baixa quantidade de urânio é capaz de suprir enormes demandas energéticas. Angra I, por exemplo, conseguiria suprir um milhão de pessoas; e Angra II, dois milhões.

Créditos de Carbono e o Brasil

Já ouviram falar nisso? Se não, estão por fora da mais nova revolução da distribuição de renda no planeta. Antes foi o petróleo, agora a água e no futuro será o ar o nosso bem mais caro!

Após a Conferência de Kyoto, foram estabelecidos metas para redução das emissões dos países responsáveis por 80% das emissões de CO2 e metano na atmosfera de 5,2% entre 2008 e 2012.

Ocorre que foram criados os créditos de carbono! Como eles funcionam? O país que polui muito compra cotas de poluição de países menos poluidores, investindo em projetos postos em prática nestes países subdesenvolvidos. 1 tonelada de carbono está cotada hoje em US$15,00 ou US$18,00. Considerando que há um ano custavam US$5,00; estima-se que o valor deve subir para US$30,00 ou US$40,00 no período de implantação da meta imposta pela Conferência de Kyoto.

O Brasil está em posição privilegiada neste contexto. Sendo um país que utiliza amplamente seus recursos hídricos, acaba por ter um índice de emissões inferior ao dos países desenvolvidos, podendo vender estas "cotas" de poluição.

Porém o futuro não parece ser tão promissor para o Brasil quanto parece. O baixo investimento no setor hidroelétrico e a iminente saturação de sua demanda de energia o colocou em uma situação complicada economica e estrategicamente. A meta de crescimento de 5% ao ano anunciada por Lula para os próximos 4 anos implica uma demanda energética para a qual não há oferta suficiente para suportar.

O plano do governo é instalar termelétricas, as quais são altamente poluentes e possuem baixo nível de produtividade. Dessa forma, a nossa vantagem no mercado de créditos de carbono fica seriamente ameaçada.

Em minha opinião uma decisão tomada por falta de planejamento. Em engenharia, considera-se um projeto de curto-prazo quando visa um período de até 10 anos; e a implantação de uma usina hidrelétrica leva pelo menos 8 anos, o que é muito tempo comparando-se a uma termelétrica que leva apenas 2 ou 3 anos, porém nada que não pudesse ter sido previsto no planejamento público.

Desastres ambientais e política governamental

Uma vez fui a uma palestra na Escola Politécnica sobre o desastre que matou 7 pessoas na linha 4 do metrô de São Paulo e me motivei a escrever sobre desastres relacionados com o meio-ambiente. Nas próximas linhas citarei, explanarei e opinarei sobre singularidades ocorridas no metrô, barragens, vazamento da Union Carbide e outros.

Impactos ambientais causados por desastres podem ou não ser causados pelo Homem. Há uma polêmica acerca deste tema: muitos, principalmente aqueles que estão do lado de fora, consideram a área da engenharia uma ciência exata; porém nós engenheiros sabemos que não é bem assim. Ser engenheiro não é simplesmente estudar cálculo, mas ter também bom senso e contar com a pura sorte e boa vontade do destino. Às vezes evitar um desastre ecológico está além de nossa capacidade e apontar culpados sem ter conhecimento dos fatos é totalmente reprovável, como muitos o fizeram após a perda de 7 vidas na linha 4 do metrô paulistano. Como dizia um professor da Fatec que dava aula ao meu tio Luís: "Engenharia é composta de 50% de cálculo, 30% de bom senso e 20% de sorte".

A engenharia civil é importante na minimização e preempção destes eventos. Em geral, os projetistas prevêem falhas e deixam uma tolerância para que essas falhas não contribuam para eventualidades que possam causar o comprometimento de uma obra. No caso do metrô, tudo indica que não houve negligência devido ao fato de que as falhas e o posterior colapso se desenrolaram em um breve espaço de tempo, inibindo assim qualquer reação por parte dos responsáveis pela obra.

De certa forma, a natureza e a nossa incapacidade de entendê-la é a razão de muitos desastres ambientais, como é o caso da barragem abaixo. Em detalhe se identifica o vertedor retangular da barragem (local por onde se escoa a água armazenada em excesso). Durante a fase de projeto é comum haver assessoria de climatologistas para identificar por exemplo o regime de chuvas no local da execução da obra, dessa forma, a barragem é projetada para suportar forças correspondentes a situações extremas e cabíveis àquela região em questão. Desastres como esse são causados por excesso de chuvas e por essa razão podem ser atribuídos ao fenômeno do super-aquecimento global. O aumento da temperatura terrestre intensifica o ciclo da água, ocasionando chuvas mais torrenciais e mais constantes. Neste caso em especial o regime de chuvas foi tão intenso que a água se sobrepôs ao vertedor e inundou a jusante da construção. Em outras situações, esta singularidade provocou a morte de milhares de pessoas que viviam na jusante do local.


Não dá para falar de desastre ambiental sem comentar o maior da história: Em 23 de dezembro de 1984, a cidade de Bhopal na Índia sofreu um vazamento de gás tóxico de uma fábrica de fertilizantes pertencente à antiga Union Carbide. Em 3 dias mais de 8.000 pessoas estavam mortas e até hoje mais de 150.000 sobreviventes sofrem com os efeitos do vazamento, incluindo as gerações seguintes aos que entraram em contato com as 40 toneladas de gases liberados naquela noite. Esse é um grande exemplo como a negligência dos responsáveis pela planta atuou catastroficamente para esse fim. A empresa foi à falência com o passar dos anos e as milhares de indenizações pagas às famílias e hoje pertence à maior indústria química mundial, a DOW Company, onde minha gloriosa prima (hehehe, sinal do apreço que tenho por ela) e politécnica também trabalha.

Quando a natureza não é responsável pelo desastre, alguém tem que assumir a culpa. É claro que um colapso pode ter causas técnicas, mas na minha opinião as causas são muito mais profundas. A política governamental de contrato a preços fixos e redução de custos acaba por esfacelar o sistema de fiscalização sobre as obras públicas. Hoje, as grandes empreiteiras ficam responsáveis por tudo, tornam-se extremamente influentes e se torna difícil para um fiscal paralizar uma obra, considerando que empresas como Queiroz Galvão e Odebrecht possuem toda forma de suporte possível ao lado deles. Se o preço é baixo, para onde vai a qualidade? É uma pergunta que o governo deveria responder à parcela da sociedade que tem se declarado insatisfeita com os resultados da engenharia brasileira.

Por fim e não menos importante, o verdadeiro paradigma na análise de desastres é descobrir as razões que levaram à singularidade com o objetivo de melhorar os algoritmos de resolução e entendimento nos projetos e execução de obras. Muitas vezes um desastre ocorre porque nunca se deu atenção para um detalhe que causaria o colapso e apartir desse evento este detalhe passou a ser mensurado e a receber mais atenção de modo a evitar futuros problemas. Engenharia não é ciência exata e está em constante evolução!

Matriz Energética no Brasil e no Mundo

No mundo a matriz energética é composta de petróleo (35,7%), carvão (23,3%), gás natural (20,3%), combustíveis renováveis (11,2%), nuclear (6,7%) e água (2,3%). No entanto o panorama no Brasil apresenta uma parcela maior para a utilização de seus recursos hídricos, embora sua principal fonte ainda seja o petróleo e seus derivados (40%).

A dependência desta fonte energética é explicada pelo rodoviarismo implantado como meio de escoamento dos produtos aqui produzidos em direção ao resto do país e aos portos rumo às exportações. A falta de investimentos por parte do governo federal na infra-estrutura citada acaba por atrapalhar diretamente o crescimento do PIB brasileiro, que foi divulgado esta semana (2,9% em 2006). O agrobusiness precisa de formas eficientes de transporte de seus produtos e, infelizmente, grande parte dessa produção se perde no meio do caminho. Está mais do que provado que o agorbusiness é um negócio que a curto-médio prazo atrairia muito capital para o Brasil sem a necessaidade de grandes investimentos como na indústria, é uma atividade que ainda pode crescer muito. As estradas estão abandonadas, os portos sempre necessitam de trabalhos de dragagem (US$7,00/m³ de terra retirada do leito do porto) e o transporte fluvial é quase inexistente. O governo atua como subsidiador do Diesel mas não basta para se manter essa estrutura.

A boa notícia é que a Petrobrás anunciou em 2006 a auto-suficiência na produção de petróleo no Brasil. O petróleo é um amontoado de vários tamanhos diferentes de cadeias carbônicas. Os derivados de petróleo amplamente utilizados no Brasil como fonte energética são cadeias pequenas e necessitam do processo de crackeamento, que quebra cadeias maiores (pixe e ceras) transformando-as em cadeias menores (gasolina). O petróleo brasileiro é "pesado", ou seja, tem em sua composição na maioria cadeias longas; dessa forma, nosso petróleo não serve para nós e deve sofrer crackeamento nas refinarias antes de ser usado.

A má notícia é que não somos auto-suficientes no refino desse petróleo, o que implica exportação do nosso petróleo "pesado" para posterior importação da matéria já refinada (petróleo "leve") pronta para ser usada. Soma-se a isso a inconveniência ambiental do uso do petróleo que gera muita poluição através do CO2, CO, C e SO2, os quais são responsáveis pela intensificação do aquecimento global e do fenômeno das chuvas ácidas.

O grande desafio é se desvencilhar do uso do petróleo através de decisões estratégicas e ambientais para solucionar tanto o problema da crise energética brasileira quanto o do aquecimento global. Para isso há as fontes alternativas de energia, as quais serão enumeradas e explicadas a seguir.

Hidroelétricas: a mídia a defende como sendo uma energia limpa mas não é verdade. O impacto ambiental é enorme pela grande área inundada e afogamento de grandes florestas, o que libera gás metano na atmosfera (poluente). Vou mais além!!! O processo de inundação causa a eutrofização, que consiste em uma superproliferação de algas e bactérias que se alimentam da matéria orgânica morta com o processo. Olhando também pelo lado econômico, essa fonte sofre por demandar um grande montante de investimentos para sua implantação, principalmente no Brasil onde os juros altos acabam por exponenciar os custos de projetos de longa duração.

Termoelétricas: uma grande vilã do meio-ambiente por usar o carvão mineral e ter baixa produtividade, causa poluição excessiva. A sua vantagem é o baixo custo de implantação mas perde no custo de operação e manutenção já que necessita grandes investimentos para sua constante modernização. A abundância e conseqüente barateamento de seu combustível incentiva sua proliferação mundo afora.

Usinas Nucleares: sempre foi mal recebida pela mídia e população, ao meu ver, sem apresentarem uma razão para tamanha preocupação. Tendo boa produtividade MWh, torna-se uma boa alternativa para locais onde as fontes hídricas já estão esgotadas, como Japão e Europa. O problema é o preço: são necessários altos investimentos em pesquisa, combustível, modernização e manutenção tornando-a acessível apenas em países ricos. Aos que a acham muito perigosa: Quantos acidentes aconteceram envolvendo usinas termo-nucleares até hoje? E com Hidroelétricas? A analogia serve para acidentes de carros e de aviões. Embora um avião sempre saia no jornal quando cai, os acidentes nas rodovias ainda matam muito mais. Sobre o lixo produzido, as nucleares são um problema pelo lixo radioativo jogado no fundo dos oceanos. Há também uma forma de impacto ambiental pelo aquecimento da água do rio usada para resfriamento de seu núcleo. A água é devolvida aos rios com temperaturas muito altas e mata os peixes no local, o que pode até ocasionar eutrofização!

Álcool: a especialidade rural do estado de São Paulo é a cana-de-açúcar, matéria-prima para produção do álcool. Pode ser considerada uma fonte renovável e nesse quesito ganha fácil da gasolina mas é um grande impactador ambiental. A queima do solo após a colheita da cana é fonte de poluentes amplificadores do efeito estufa.

Energia Solar: existem duas maneiras de se aproveitar a energia solar e muita gente se confunde com isso. Pode-se instalar aquelas células captadoras de luz solar que esquentam a água das residências (alternativa mais barata que deve se intensificar num futuro próximo). Também o modelo das células fotovoltáicas, as quais tranformam a luz solar em energia elétrica de fato, diferentemente do modo anterior, que transforma a energia solar em energia térmica. A combinação desses 2 elementos parece ser uma solução interessantíssima para o uso doméstico num futuro (talvez) próximo se não fosse por um detalhe: as fotovoltáicas têm vida útil de 2 anos e depois viram lixo tóxico.

Células de combustível: é a maior esperança para resolver o problema das emissões de poluentes. Uma célula de combustível proporciona produção de energia apartir de uma reação entre oxigênio e hidrogenio, produzindo água pura. O único risco é o de explosão por ser uma reação que libera muita energia. Este modelo está em testes e hoje já se vê ônibus circulando na Alemanha com essa configuração. Uma energia limpa e sustentável!